Entrevista a Jimmy Wales e Jorge Marinho - WikiTribune: In Principio Erat Signum… Agora, Continua em Português…

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Este trabalho visa abordar a cooperação entre o WikiTribune e investigações  académicas das unidades curriculares de Semiótica da Comunicação e de Públicos e Audiências do Curso de Ciências da Comunicação da Universidade do Porto / Portugal (2018-2019), destacando o papel da referida cooperação na preparação do lançamento do WikiTribune em Língua Portuguesa.

(Esta entrevista foi realizada por correio electrónico).

Cooperação do WikiTribune com pesquisas universitárias

Pergunta (P): Como surgiu a colaboração com o projecto WikiTribune e de que forma pensa que tem sido vantajoso para os alunos, a nível pedagógico e académico?

Resposta (R) / Jorge Marinho: In principio erat signum… (No princípio era o signo…) Tudo começou quando eu, em Setembro de 2018, como professor da unidade curricular de Semiótica da Comunicação do Curso de Ciências da Comunicação da Universidade do Porto (Portugal), atribuí a vários grupos de alunos um trabalho académico: investigar, teoricamente, a importância dos signos, em especial dos símbolos, e, no plano prático, criar um logótipo para um meio de comunicação digital – WikiTribune / Inglês. Depois, em Fevereiro de 2019, eu contactei, pela primeira vez, directamente, o fundador do WikiTribune e da Wikipedia – Jimmy Wales (um Americano que vive, actualmente, em Londres / Reino Unido). Durante este contacto, eu sugeri que, em 2019, os meus alunos (Brasileiros, Mexicanos e Portugueses) da unidade curricular de Públicos e Audiências do Curso de Ciências da Comunicação da Universidade do Porto continuassem a colaborar com o WikiTribune, no âmbito de outra pesquisa académica: estudar, em termos teóricos, o jornalismo colaborativo e, com uma vertente prática, publicar artigos no WikiTribune / Inglês. De imediato, amavelmente, Jimmy Wales concordou. Eu não me esqueço e agradeço. Posteriormente, Jimmy Wales e a sua equipa deram-nos a possibilidade de colaborar, pioneiramente, no lançamento do WikiTribune em Português, com artigos e com algum trabalho administrativo. De facto, historicamente, quando se trata da Língua Portuguesa nos diversos continentes, eu tenho presente um Português (com P maiúsculo), Luís de Camões (1524-1580…), com a sua vida / obra, em especial Os Lusíadas (1572), até à última palavra. Actualmente, a Língua Portuguesa também navega na Internet com o WikiTribune.

Na minha perspectiva, esta cooperação entre as referidas unidades curriculares do Curso de Ciências da Comunicação da Universidade do Porto e o WikiTribune tem permitido, com base na realidade, desenvolver uma formação teórico-prática. No que toca a Públicos e Audiências, os alunos podem:

-treinar trabalho em grupo, em contexto internacional, articulando, através da Internet, acções com a equipa do WikiTribune que se encontra em Londres

-aprofundar conhecimentos relativos ao jornalismo colaborativo

-interagir com receptores / co-autores, a partir de trabalhos escritos e multimedia, aproveitando as características da Internet

-criar conteúdos ajustados ao público-alvo

-compreender a importância da Língua Inglesa, no âmbito da comunicação internacional / global

-segmentar os públicos / audiências, em função do código linguístico, como se verifica com o Português, por exemplo.

Nesta fase intermédia, do meu ponto de vista, o balanço é muito positivo. Na devida altura, com a nossa independência académica, tiraremos as nossas conclusões finais e apresentaremos as nossas recomendações.

De facto, Jimmy Wales e a sua equipa sabem como concretizar, com êxito, através da Internet, projectos na área da comunicação. A Wikipedia é um caso emblemático. Ainda há domínios que Jimmy Wales e as pessoas que com ele trabalham podem explorar. A título exemplificativo, eu proponho:

-entretenimento / ficção, em Inglês e em Português (vídeo, WebTV, canais televisivos no YouTube e cinema)

-ensino do jornalismo.

Busto de Luís de Camões na cidade do Porto (Portugal) [Foto: Jorge Marinho]

P: Por que razão aceitou o convite para trabalhar com alunos da unidade curricular de Públicos e Audiências do Curso de Ciências da Comunicação da Universidade do Porto?

R (Jimmy Wales): Eu penso ao contrário! Senti-me honrado quando os estudantes aceitaram o convite para trabalhar comigo!

P: Quais foram as razões que o motivaram a apostar no jornalismo colaborativo e porque considera importante levar esta nova corrente de jornalismo às aulas?

R (Jorge Marinho): O WikiTribune permite aos alunos da unidade curricular de Públicos e Audiências do Curso de Ciências da Comunicação da Universidade do  Porto   estudar por dentro, de uma forma completa, isto é, no plano teórico-prático, algo de relativamente recente – o jornalismo colaborativo. Para mim, como professor, é importante dar aos meus alunos uma formação profunda e actual, através dos trabalhos de investigação.

Jornalismo colaborativo

P: Qual é a importância do jornalismo colaborativo na era digital e de que forma pode contribuir para a sociedade?

R (Jimmy Wales): Sabemos que, actualmente, o jornalismo é mais importante do que nunca. Somos inundados com falsas informações e a democracia e a liberdade estão ameaçadas, globalmente, por causa disso. Os factos importam. E, mesmo assim, os modelos de negócio para sustentar jornalismo de qualidade têm estado sob pressão intensa. Temos de encontrar uma nova forma, e eu acredito que a nova forma tem de vir com um novo conjunto de valores de cooperação, colaboração, e diálogo calmo e ponderado, em vez de se caçar cliques. Eu penso que a maioria dos jornalistas profissionais foi para o ramo com a paixão pela procura da verdade, não uma paixão para escrever ruído em forma de caça ao clique (clickbait). É isso que eu espero que a colaboração com membros sérios da comunidade e que apreciam trabalho de qualidade nos traga de volta!

P: Como desmistificar que, no jornalismo colaborativo, qualquer um, mesmo sem vínculos académicos com o jornalismo, pode alterar e publicar informações em plataformas como WikiTribune? Qual alternativa para manter um jornalismo de qualidade, visto que todos se podem inscrever, publicar e modificar reportagens?

R (Jorge Marinho): De facto, à partida, o WikiTribune tem uma ampla abertura para as pessoas, em geral, divulgarem os seus trabalhos, de acordo com certos princípios / orientações editoriais. Contudo, antes de serem considerados como efectivamente publicados, os referidos conteúdos podem ter que passar por uma fase de rascunho. Nesta etapa, os trabalhos já podem ser acedidos e, eventualmente, por diversos motivos, alterados / corrigidos pelos receptores e por elementos que, de alguma maneira, estão ligados à estrutura organizativa do WikiTribune. Tudo isto está estabelecido para defender a qualidade do WikiTribune. Obviamente que a qualidade do WikiTribune está relacionada com qualidade da sua (ciber)comunidade, incluindo quem faz parte da estrutura organizativa.

P: O WikiTribune não faz a distinção entre um “jornalista cidadão” e um jornalista profissional, mas espera os mesmos padrões dos colaboradores. Por que razão decidiu não fazer esta distinção na plataforma?

R (Jimmy Wales): Eu penso que pessoas são pessoas. Há coisas que jornalistas profissionais e pagos podem fazer que são muito difíceis para voluntários. Mas, também há habilidades e talentos na comunidade que não são replicados pelos funcionários profissionais. Por isso, eu penso que a igualdade é necessária, caso contrário acabaríamos onde todos os outros sítios de notícias estão – numa espécie de cultura “de cima para baixo” que não ajuda.

P: Pensa que o WikiTribune tem o potencial para mudar o jornalismo “tradicional”?

R (Jimmy Wales): Sim. Penso que há um sentimento crescente de que precisamos de encontrar formas melhores para apoiar os jornalistas profissionais e para envolver melhor as pessoas sérias da comunidade. O jornalismo tradicional mantém-se muito “de cima para baixo” e, maioritariamente, só permite a participação da comunidade através das caixas de comentários – onde as piores pessoas do mundo gritam umas com as outras!

P: Na sua perspectiva, o WikiTribune pode tornar-se a plataforma principal para jornalismo colaborativo?

R (Jimmy Wales): Uma característica engraçada em mim é que nunca penso nesses termos. A pergunta está criada de forma a sugerir “competição”, mas eu nunca penso em competição. Acho que devemos fazer coisas juntos que achemos interessantes e divertidas e que valham a pena. E se outras pessoas gostarem e se tornar popular, ainda melhor!

P: Acredita que o WikiTribune vai ser a principal plataforma de jornalismo colaborativo, tendo em conta todas as alternativas concorrentes?

R (Jorge Marinho): Respeitando, à partida, os sítios noticiosos alternativos, o WikiTribune, em Inglês e em Português, com trabalho honesto, dedicação, inovação, criatividade, competência, entre outros aspectos, pode melhorar a curto, médio e longo prazo. Para tal, o jornalismo de investigação, as notícias exclusivas, a capacidade de diferenciação em relação às alternativas, o carácter vanguardista e a divulgação são essenciais. O enquadramento profissional de tudo isto merece uma reflexão.

P: De que modo é que o jornalismo colaborativo pode influenciar a relação entre os media e os seus públicos? Pode resultar numa maior fidelização por parte dos públicos?

R (Jorge Marinho): Desde logo, no âmbito do jornalismo colaborativo, os receptores também podem ser autores ou co-autores. Uma característica deste tipo de meios noticiosos, como se verifica com o WikiTribune, é uma interacção relativamente elevada entre os autores dos trabalhos e os seus públicos. Estes sentem que fazem parte e, na realidade, fazem mesmo parte do meio de comunicação. Deste modo, forma-se uma (ciber)comunidade constituída por todas as pessoas que, de alguma maneira, contribuem para o WikiTribune . A este respeito, a componente emocional dos laços é relevante.

Língua Portuguesa

P: De que forma é que o WikiTribune em Língua Portuguesa pode fomentar a prática jornalística nos estudantes Portugueses?

R (Jimmy Wales): Eu chamo à geração actual de estudantes “geração Wikipedia” – o que significa que percebem as comunidades abertas e a colaboração. Quero aprender com os jovens jornalistas sobre o que funciona e o que não funciona nas ferramentas que usam para apoiar as comunidades.

P: Como tornar o WikiTribune / Português uma plataforma mais apelativa, de modo que os estudantes e jornalistas Portugueses participem de forma voluntária?

R (Jorge Marinho): A divulgação junto do público-alvo, através, por exemplo, de campanhas de Relações Públicas, incluindo as redes sociais e organização de eventos, pode contribuir para dar a conhecer este meio noticioso digital e, deste modo, atrair colaboradores. A qualidade, tanto em temos formais como substanciais, de um meio de comunicação também tem poder de atracção. Tudo isto implica, com a devida gestão, recursos humanos, técnicos e financeiros.

P: Na sua opinião, o WikiTribune / Português vai conseguir atrair colaboradores com facilidade?

R (Jorge Marinho): Tal como respondi à pergunta anterior, a atracção de colaboradores é uma tarefa que passa por diversos aspectos. O público do WikiTribune é uma fonte de colaboradores. Há que, continuamente, trabalhar para atrair, manter e aumentar o público que interessa ao WikiTribune. Quem realizar esta tarefa deve ter uma perspectiva a curto, médio e longo prazo. Quem realizar esta tarefa deve estar preparado para superar dificuldades internas e externas.

P: Pensa que será fácil atrair colaboradores para o WikiTribune / Português?

R (Jimmy Wales): Penso que a única forma de saber é experimentar. Obviamente que não há muito que eu possa fazer pessoalmente para atrair colaboradores, para além de dizer “estão convidados” e, por isso, a chave é encontrar pessoas que espalhem a palavra nas redes sociais, pelos seus amigos e através de outras publicações.

P:  De que forma é que o Português é importante para o WikiTribune?

R (Jimmy Wales): Tal como no meu trabalho anterior na Wikipedia e Wikia / Fandom, penso de forma global. O meu objetivo é aproximar uma grande comunidade global de pessoas criteriosas que se importam com as notícias e trabalhar com jornalistas profissionais para produzir algo novo.

P: Tendo em conta que o Brasil é o país com mais falantes de Português, no WikiTribune como será tratada a informação, de modo a evitar, excessivamente, aspectos característicos da variante brasileira da Língua Portuguesa, considerando também os outros Países de Expressão Portuguesa?

R (Jorge Marinho): O Português, independentemente das variantes, serviu e continua a servir como factor de união entre povos, com benefícios internos e externos mútuos, tal como se verifica com outras Línguas que têm uma situação semelhante. A este propósito, eu saliento a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. No contexto da Lusofonia, eu ainda acrescento, como exemplo, Macau (China).

P: De que forma é que a Língua Portuguesa é uma mais-valia para o WikiTribune?

R (Jorge Marinho): Começo por responder com factos, segundo o Instituto Camões (consulta em 18 de Abril de 2019):

«4ª língua mais falada no mundo

261 milhões de pessoas falam português nos cinco continentes

4% da riqueza total do globo

5ª língua com maior número de utilizadores na Internet.».

A Lusofonia também pode ser perspectivada geopoliticamente e geoeconomicamente.

Contudo, para o WikiTribune, em todas as suas línguas, deve ter uma importância máxima o serviço que pode prestar à sociedade local, nacional e internacional / global e, deste modo, pode contribuir para o progresso da Humanidade.

Autores:

Adriana Peixoto

Inês Alves Vieira

Inês Saraiva

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