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Entrevista a Joaquim Moreno: 100 Anos de Bauhaus

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“Formemos, portanto, uma nova corporação de artesãos, sem a arrogância exclusivista que criava um muro de orgulho entre artesãos e artistas.” – Walter Gropius.

Há 100 anos atrás, Walter Gropius escrevia o manifesto da Bauhaus. A escola Bauhaus foi também oficina, e opôs-se fortemente ao elitismo das escolas de arte europeias.

A Bahaus tornava-se,em 1919, o rosto do modernismo. As peças de mobiliário acessíveis fizeram com que o estilo se espalhasse rapidamente, pois as pessoas podiam encher as suas casas com as peças Bauhaus. Essa linguagem tornou-se universal. A forma passou para segundo plano, atrás da função. O prático vem em primeiro, o estético em segundo.

A Bauhaus fez uma nova abordagem à educação, arquitetura, pintura, dança e design que ainda hoje em dia está à nossa volta. Em contexto dos 100 anos da escola Bauhaus, fomos no dia 1 de Abril falar com o professor, curador e arquiteto Joaquim Moreno. Doutorado em História da Arquitetura pela Universidade de Princeton (Estados Unidos da América). Este especialista fala connosco no pátio do pavilhão Carlos Ramos da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (Portugal), projetado pelo arquiteto Sisa Vieira.

“Famosamente Kenneth Framptom dizia que era [o pavilhão] a atualização da Bauhaus. No sentido em que era um edifício que de alguma maneira corporizava os seus princípios didáticos. Da mesma maneira que o edifício de 1926, em Weimar, desenhado por Walter Gropius corporizava os princípios pedagógicos da escola, também este pátio, onde a escola é transparente, é capaz de olhar para o território e olhar para a paisagem, corporiza o que são os princípios pedagógicos desta escola” – Joaquim Moreno.

Pavilhão Carlos Ramos, Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto.
Fotografia por: Maria Francisca Cabral

Em que contexto histórico e social surge a Bauhaus?

Joaquim Moreno – A Bauhaus aparece num momento em que é preciso, na Alemanha, reorganizar a produção de objectos industriais. Que é aquilo que a gente entende por design. Voltar a fazer com que o processo de produzir objectos, produza objectos com sentido. E que os objectos não sejam nem indiferentes à maneira como são produzidos, nem indiferentes à maneira como são utilizados, que era o que acontecia com a revolução industrial. A Bauhaus, em 1919, junta uma escola de artes com uma escola de artes e ofícios. A Bauhaus tinha um currículo de base baseado na experiência direta com os vários materiais, da cerâmica, da madeira e do ferro, aprendendo através da manipulação. Aprendendo das condições materiais das coisas, chegava-se ao terceiro ano e os alunos eram mestres. Que é uma estrutura paradoxal ao mestrado integrado de hoje em dia. Os alunos eram mestres de um oficio e só quando dominavam um ofício é que passavam para a outra abstração, chamada projeto. Chamada fazer arquitetura. A Bauhaus funcionava nesta vontade de aprender a fazer, saber fazer, saber pensar. E partir daí saber congregar a produção industrial e fazer objectos bem feitos para todos, esta é que era a promessa da Bauhaus. A Bauhaus criou uma matriz do ensino da arquitetura que, provavelmente, chega até hoje. Nós continuamos a pedir aos nossos alunos que aprendam, que inventem os problemas e aprendam da experiência direta das condições dos materiais e dos problemas. E é sobre essa base que depois se constrói o edifício maior de ensinar arquitetura. Como a Bauhaus fez em 1919, depois no novo edifício, quando se transfere de Weimar para Dessau, em 1926. Este [pavilhão Carlos Ramos], aqui, desde o final dos anos 80, tem feito um bocadinho essa viagem.

Referiu a promessa da Bauhaus, que promessa era essa?

JM – Tinham um programa social de base de promover a igualdade. A Bauhaus levou a escala do problema à micro escala da tipografia e da letra. Herbert Bayer desenhou um tipo de letra para a Bauhaus que não tinha maiúsculas. Que era muito mais fácil de compor e mais próxima à oralidade porque também não falamos com maiúsculas. A Bauhaus, de facto,não fez o exercicío de usar e deitar fora, tem alguma perenidade e continua a surpreender por causa disso. Da escala da letra, à escala do edifício e à escala da cidade. O leque emocionante da Bauhaus é muito grande e é por isso que, periodicamente, cada um se vai sintonizando no fundo à escala que lhe interessa. Também à escala da música, à escala da festa, à escala da dança…a Bauhaus reinventou a coreografia e os adereços de cena. Não se limitou exatamente à arquitetura ou à chaleira, por assim dizer, é um universo muito grande.

Há quem acuse a Bauhaus de promover o consumismo…

JM – A visão normativa da Bauhaus, como o único veículo da vanguarda, que, depois, é transportada, a seguir à guerra para os EUA, é uma visão simplista. A única maneira de pertencer à vanguarda não era essa. Evidentemente, a Bauhaus é o acordo entre a vanguarda e a indústria, entre a vanguarda e a produção de massas capitalista. Portanto, a construção de uma Bauhaus, simultaneamente comunista e industrial, é uma ficção simplificada que depois não explica nem o extraordinário, nem o trágico. Não explica nem as dificuldades que a Bauhaus teve, porque teve e fechou com a ascensão do nazismo. Nem depois a maneira como a Bauhaus foi mobilizada para um lifestyle que capitalizava produtos. Um lifestyle elitista, que não era de produção de massas. Entre estas duas coisas, há uma aventura histórica que continua a ser estudada. É importante criticá-la, é importante conseguir mais sentidos, mais facetas e mais visões sobre a Bauhaus. Umas vão ser mais elogiosas e outras vão ser menos.

E porque é que, depois de 100 ano,  continua a estar tão presente a influência da escola Bauhaus?

JM- Era uma ideia extraordinária, com protagonistas extraordinários e com meios de comunicação extraordinários. A ideia da Bauhaus tinha urgência no seu tempo e era uma ideia que articulava política, economia e artes. E foi capaz de agregar o mais notável pensamento, produção e artes do seu tempo, além de produzir alunos extraordinários. E é por essa confluência de inteligência e de urgência que continua passado 100 anos a ser a grande matriz. E depois a Bauhaus também percebeu, logo desde muito cedo, que era fundamental imprimir essa inteligência na sociedade, torná-la pública. E a Bauhaus tinha uma coleção extraordinária, os livros da Bauhaus. Há livros que nós continuamos a ler, que nós continuamos a usar enquanto materiais pedagógicos que foram publicados nessa coleção dos livros da Bauhaus. Tinha uma revista, tinha exposições, mesmo todo esse interface de comunicação entre a arquitetura e a sociedade foi estabelecido, de alguma maneira, pela Bauhaus. O momento em que a modernidade, enquanto ideia, encontrou uma maneira de se transmitir e perpetuar, foi com o formato escola.

 

1 de Abril de 2019

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