Terapia sexual. Entrevista: "Do meu coração até ao topo das estrelas"

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Na elite intelectual da Grécia Antiga era defendido o conceito de temperança. Filósofos como Platão e Aristóteles distinguiam os principais prazeres humanos: a bebida, a comida e o amor. Apesar de ser reconhecida a sua importância para o homem, estes prazeres eram considerados auto-destrutivos e perigosos se ultrapassassem as necessidades fisiológicas e se tornassem excessivos. Esse perigo consistia no homem se tornar escravo dos prazeres e perder o auto-domínio. A adicção, condição descrita desde a antiguidade, é um problema que mantém a  sua atualidade. Esta condição-doença pode ser amenizada através de grupos de ajuda mútua, terapia e acompanhamento psicológico. Em entrevista, uma das sobreviventes da adicção sexual quebra o silêncio contando a história da sua luta, explicando em que consiste a adicção comportamental ao sexo e ao amor (ainda objecto de muita especulação no meio científico) e conta o seu processo de recuperação interior e no seio do único grupo de ajuda mútua do país (As reuniões realizam-se em Lisboa, Portugal).

A entrevista é anónima para proteger a identidade da entrevistada.

Pergunta(P): Qualquer comportamento adictivo revela-se antes do seu reconhecimento como tal. Quando é que começaste a revelar os primeiros sintomas de dependência em amor e sexo?

Resposta(R): Eu consigo ver que os primeiros sintomas… é um bocado difícil dizer assim porque não é óbvio que as pessoas relacionem os primeiros sintomas com o problema de adicção ao sexo especificamente… Para mim essa relação é óbvia: eu lembro-me que  tinha oito anos e tomava sempre banho em casa de fato banho porque, na minha cabeça, um rapaz da escola que eu conhecia conseguia ver-me a tomar banho. Ele tinha um mecanismo que o permitia fazer isso, tinha esse poder. Ele conseguia ver-me a tomar banho, e eu tinha que usar fato-de-banho porque tinha vergonha.

P: Tu não querias que ele te visse?

R: Não queria que ele me visse. Isto para mim é um sintoma do mundo paralelo, de fantasia e de uma forma de “coping mechanism” para com a realidade, para com uma realidade dura e uma infância dolorosa para uma criança. Um mundo imaginário e de fantasia era a minha forma de lidar com a vida. Então eu entendo isso como o primeiro sintoma.

P: Como é que foi o processo de aceitar esse comportamento como uma doença?

R: Eu acho que esta doença é como todas as outras adicções, é auto-diagnosticável. Só se tornou uma doença no dia em que eu olhei para ela como uma doença. Porque até lá era só a minha forma de ser e de viver. Era a minha realidade. Até bem pouco tempo atrás todos os meus comportamentos sexuais eram apenas a minha forma de viver, eram opções, a minha negação não me permitia ver que eu não tinha escolha.

P: E o que é que te fez perceber que não tinhas escolha?

R: Quando… Eu já não tinha escolha há muito tempo, mas, como eu te disse, a minha mente mente-me de uma forma muito subtil e elaborada e eu não tinha capacidade para perceber. Sempre que eu conhecia alguém apesar de 5 minutos a seguir conhecer outra pessoa eu acreditava sempre que era o destino… Eu não tinha escolha. Eu nunca tive escolha. Desde muito nova que fui escrava desta obsessão mental. Daí eu dizer, há pouco, que o mundo de fantasia foi o primeiro sintoma, porque aquele mundo era muito real para mim. Este espaço mental é onde tudo acontece.

P: A adicção sexual expressa-se de várias formas. Cada pessoa adicta tem um comportamento distinto. Como é que se expressa a tua dependência a nível sexual?

R: Na organização mundial de saúde (OMS) a adiçcão é descrita como uma doença progessiva, incurável e mortal. Então, exatamente por esta ordem, a minha adicção foi lentamente progressiva … Primeiro, começou com este padrão da fantasia obsessiva romântica. Depois, na adolescência, tinha muitos encontros que poderiam ser inocentes, mas eu fazia coisas para as quais não estava preparada, porque queria agarrar as pessoas através de atos sexuais. Não havia propriamente penetração mas, a seguir, eu sentia-me violada, apesar de ter sido ideia minha. Também quando os meus pais não estavam em casa tentava aceder a canais como a SIC radical, onde há noite passavam coisas pornográficas e de fetiches. Eu tinha um grande fascínio e curiosidade por isso. Ao longo dos tempos, na fase da minha adolescência tardia, começaram as orgias. Fui introduzida ao mundo do BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão e Sadismo) e do fetiche. Tive um dominador. Tive um dono, e aí iniciei a minha vida na prostituição. Até aí nunca tinha tido a capacidade de ser fiel. Os meus namorados acabavam comigo com grandes cenas de violência e humilhação da parte deles, porque descobriam as minhas mentiras. Não tinha a capacidade de ser fiel. Era muito envergonhada na escola. Não conseguia manter um grupo de amigos por muito tempo, porque me chamavam “puta” e “porca” e tentavam envergonhar-me. Eu própria acabava por fugir desses grupos. A parte mais violenta foi a prostituição e a introdução no mundo do BDSM. Agora para o fim, os fetiches intensificaram-se, já não era capaz de ter sexo normal com alguém que fosse amoroso e querido, ou mesmo que fosse levemente ordinário. Tinha de haver uma componente de perigo, encontrava-me com pessoas que eu não conhecia através de perfis online em sites de fetiches de “coisas” ilegais… já começava a ser à margem da lei. Comecei a ter obsessões por rapazes menores de idade e por situações perigosas que envolviam… Comecei a perceber que era o fim da linha. Para responder à pergunta …, não existe um modus operandi, foi mudando com o tempo, e a minha vontade de adrenalina e de perigo levava-me sempre a conhecer pessoas com um mundo sexual muito especifico, e eu rapidamente apropriava-me desse mundo e queria mais.

P: Tu própria já referiste a descrição da adicção segundo a OMS e pela descrição do teu comportamento conclui-se que a dependência sexual é tão fatal como as adicções quimícas. Para além do distúrbio que causa na vida amorosa, sexual, social e profissional, conduz a pessoa a situações de risco físico como sexo desprotegido e situações de perigo associados a um comportamento imprudente. Podes falar um pouco dos estragos e o dos perigos a que esta doença te submeteu?

R: Eu vou te dizer…, eu tenho muita sorte! A única doença propriamente com que eu fiquei foi herpes labial, ou seja, é uma sorte enorme visto que, para te ser honesta, eu usei preservativo exclusivamente com os meus clientes, na prostituição. Eu não te sei dizer…, mas estamos a falar de centenas de pessoas. Foi uma sorte muito grande! Tive algumas infeções, mas graças a Deus tudo coisas que passaram. Estive grávida, mas abortei naturalmente. Tenho muita sorte, não sinto que tenha ficado com nenhuma consequência física mas, no entanto, as pessoas com que eu me dava eram verdadeiramente perigosas. Tive situações de sexo com pessoas que eu sabia que me iam bater e violar (não sei se deixa de ser uma violação). Não havia uma palavra safe para se alguém me estivesse a estrangular com muita força. Houve muitas vezes que fiquei inconsciente, e eu tive clara noção de que, se a pessoa me matasse ali, eu não dizia que não. Isto no fundo é um trauma que eu fiz a mim própria. Eu sinto que hoje tenho que pedir desculpa a mim mesma por este comportamento.

P: Vicío em amor, sexo, álcool, drogas, achas que se podem considerar uma perseguição imprudente e auto-destrutiva de um estado ilusório de ascensão  (sedução e acumulação de parceiros como um troféu).

R:… Uma ilusão de grandeza sem dúvida.

P: Sentias essa sensação de grandeza?

R: Sentia no antes muito. Todos estes esquemas que eu tinha… no meu telefone, estas conversas e estas pessoas. Antes dava-me uma sensação de proteção, escudo e grandeza na vida como se ninguém me pudesse tocar e ninguém soubesse quem eu realmente era porque as minhas aparências enganavam bastante. Isso fazia-me sentir poderosa e forte porque, na verdade, eu não sabia mas precisava deste escudo, porque era bastante frágil e desprotegida. E precisava disto. Não sei se era propriamente por aborrecimento, eu simplesmnete não sabia viver de outra forma. São padrões que tenho desde muito nova. Também me identifico em achar que sem isto a vida era muito aborrecida… por isso talvez de uma certa forma vai ao encontro do que tu referiste.

P: Sentias que a tua compulsão sexual foi uma compensação da realização não concretizada a outros níveis?

R: Varia muito de pessoa para pessoa. No meu caso, não sinto que fosse uma coisa tão elaborada. Eu tinha uma profissão para além da prostituição, e era bem sucedida. Muito mais que a realização, a minha adicção teve a ver com aquilo que eu passei na minha infância. Quando eu era criança, sofri uma situação de abuso por parte de um maior, e os meus pais eram negligentes. No fundo, a atenção que eu tinha era por parte de um pedófilo, e para sempre isto ficou enraizado em mim que amor e atenção eram abuso e violência. Eu simplesmente perpetuei esse padrão até ao fim, e fui ficando cada vez mais doente. Na verdade, esta é a minha leitura da minha adicção.

P: Apesar de tu identifcares a tua doença com um trauma sexual de infância hoje em dia já se sabe que a adicção sexual não é exclusiva a pessoas com um historial de abuso sexual. No fundo, a adicção é uma única doença movida pelo raciocínio falacioso de que se obtém realização através de uma substância química ou comportamental. Por isso é muito comum pessoas que sofram adicção sexual e amorosa serem ou já terem sido vítimas de adicções químicas. Sofreste mais alguma adicção?

R: Eu posso dizer que estou em recuperação hoje em dia de tudo. Só não estou de jogo, porque nunca joguei, e nunca vou jogar. Estou em recuperação de alcóol, de drogas, de co-dependência, de comida. Tudo o que for reuniões, identificação, e programas de doze passos, eu faço. Também sempre me auto-mutilei. Não faz sentido estar em recuperação de uma coisa e não estar em recuperação de tudo. Porque são só escapes, para mim são só escapes da mesma coisa. Mas, como eu te disse, isto varia muito de pessoa para pessoa. Há pessoas que não se identificam nada comigo, só têm um problema com o sexo e mais nada. Outras só com álcool e não se identificam com adicção a drogas. Portanto…, isto é auto-diagnosticável e tem a ver com aquilo que tu sentes.

P: Tu já referiste a tua adicção ao amor quando falaste dessa imagem romântica que perseguias desde pequena. Quando a dependência sexual se casa com uma dependência amorosa é comum a pessoa apresentar comportamentos contraditórios. Ou seja, acaba por revelar-se uma comportamento de compulsão sexual movido por uma dependência emocional e uma busca de amor. Sentes esta contradição no teu comportamento?

R: Para ser honesta eu não faço a distinção entre as adicções. Aliás, porque eu tenho a certeza que amor não tem nada a ver com isto. Para mim é adicção ao sexo, e simplesmente existe a romantização de uma fantasia, erótica, sexual ou romântica, é tudo a mesma coisa. Eu podia romantizar uma pessoa mas, na verdade, tudo o que eu queria era sexo. Quando a pessoa se tornava real, a pessoa começava a dar-me asco. Quando a pessoa queria algum tipo de intimidade, a mim dava-me repulsa. Sem dúvida que para mim o amor e cuidado pela situação ficou perpetuamente associado a sexo e violência. Eu sei que sempre que fui à procura dessas situações eu só precisava de ser amada.

P: No fundo é a perseguição de uma imagem. Kierkegaard, o filósofo dinamarquês que estudou em várias obras o amor, considera a “paixão como sendo o supremo valor do estádio estético”, ou seja, a paixão é uma imagem de beleza.

R: Exatamente. É essa a expressão, estético. Porque, na verdade, amor é muito mais do que isto tudo.

P: A imagem da sociedade em relação aos adictos em sexo é muito distorcida. Há muitas pessoas que conciliam a adicção com uma vida funcional, tendo família, trabalho… Como é que se explica que são pessoas normais com uma doença?

R: Aquele senhor que me abusou quando eu era pequena, eu não te posso dizer que alguma vez tenha ficado zangada com ele. E hoje em dia percebo porquê, porque, como esta adicção é progressiva, eu facilmente me tornaria uma abusadora. Isto não é fácil a sociedade aceitar… pessoas sem qualquer tipo de problema não têm densidade suficiente para perceber que isto é um problema mental. Eu compreendo que seja difícil, para uma pessoa saudável mental e espiritualmente, entender que um pedófilo mereça perdão. É mais fácil a sociedade aceitar uma pessoa que se droga… e, mesmo assim, não é… um drogado é considerado fraco de espiríto. No sexo existe muito isso. Por oposição, vivemos num mundo hipersexualizado. Um mundo em que tudo é permitido. As adolescentes são sexualizadas, as pessoas abordarem-se umas às outras de forma desrespeituosa é tolerado, o sexo extra-conjugal é “ok”. É o fim dos moralismos. Num mundo regido por sexo, onde somos confrontados diariamente com imagens de peitos, corpos… Mas tudo o que tenha a ver com a parafilia e as consequências disto tudo… A pornografia é super aceitável. Um rapaz que não veja pornografia não é homem feito. Por outro lado, existe uma consequência disto tudo. Nos anos trinta (século XX), não havia tantos adictos ao sexo como hoje em dia. No fundo a doença acompanha a sociedade.

P: Ou seja, estamos a falar de uma sociedade que também tem um papel incoerente em relação a esta adicção.

R: A própria sociedade está doente mas não aceita as consequências dessa doença.

P: Foste julgada pelos outros?

R: Ao principio sim. Eu era muito nova, e os meus comportamento claramente não eram normais. Eu ia sair com o meu namorado, e atirava-me a todos os amigos dele. Não me conseguia controlar. Com os anos, fui ficando mais cautelosa, aprendi a esconder melhor. Para o fim, já ninguém poderia dizer nada disso, até porque as pessoas com quem eu me abria eram pessoas com um problema igual ou maior que o meu. Mas eu sinto um estigma: eu não disse à minha familia com todas as palavras, disse que tinha um problema com intimidade que em certa parte é verdade. Eu tenho um problema em ser realmente intíma com alguém e isso afasta-me dos meus sentimentos, é uma dor. Uma dor, uma pessoa viver a vida completamente anestesiada sem sentir amor, compaixão e empatia por ninguém. É um mundo muito solitário e muito triste. Mas não digo isto à boca cheia a ninguém, e das poucas vezes que disse ninguém quis entender.

P: Tu tentas esconder o teu comportamento?

R: Tornei-me perita em esconder. Em viver uma vida dupla.

P: A figura da mulher ninfomaníaca foi sendo modificada ao longo das últimas décadas pela cultura pop e foi erradamente transformada numa mulher libidinosa. Essa imagem abafou o grito de ajuda assente nesse comportamento e levou a uma opinião geral de que um adicto em sexo é alguém que adora fazer sexo. Achas que essa má interpretação te prejudicou?

R: Eu sou um pouco mais velha. Eu acompanhei toda esta transformação social e, hoje em dia, eu sentia-me mais confortável em ser quem era. Porque, hoje em dia, uma mulher no século XXI faz o quiser e  um homem não pode dizer nada, mas, quando eu era adolescente, eu sentia que os homens é que mandavam. Se eu usasse maquilhagem já não era bem vista. Os rapazes gostavam das miúdas calmas e ao natural, e os meus comportamentos eram inaceitáveis. Mas lá está, essa música do “I´m a nympho”… hoje em dia todas as músicas que passam na MTV são sobre isso. Sempre relacionadas com dinheiro, violência, nudez e objetificação da mulher. Ao mesmo tempo vivemos numa altura em que se luta contra a objetificação da mulher. Enfim…, hoje em dia sentir-me-ia muito mais à vontade, mas não deixava de ter vergonha.

P: Mas esse à vontade também pode ser problemático?

R: Como eu te disse é uma doença auto-diagnosticável. Não vou dizer que a sociedade não poderia mudar e que não seja responsável. Mas a mim, como adicta em recuperação, não me interessa. A mim interessa-me saber qual é o meu problema e o que é que eu vou fazer em relação a isso. A mim isso ajuda-me mais do que atribuir culpas. Mas, uma mensagem que eu posso deixar a uma adolescente que se sente desconfortável com a falta de escolha no seu comportamento…, porque apesar de ser muito “giro” e aceite socialmente ela sente-se triste, sozinha, distante dos amigos e da sua adolescência, … a minha mensagem é: que há uma solução e que nunca é tarde porque o fundo do poço é quando uma pessoa quer parar de cavar!

P: A vergonha é um dos sentimentos mais descritos por adictos sexuais e amorosos após determinados comportamentos. Essa vergonha exige alguma desaprovação alheia ou basta uma auto-desilusão?

R: É completamente interno. Até porque eu me dava com pessoas que me apresentavam aos fetiches. Eu era muito nova. Eu tinha dezanove e envolvia-me com pessoas com quarenta e muitos anos. Portanto eu era apresentada a mundos já bastante complexos, e eu não sentia… Sentia vergonha no incío, quando tinha treze, quatorze, porque os miúdos eram muito cruéis,  mas mais tarde, a vergonha vinha mais do interior, eu sentia-me suja e auto-mutilava-me. Como se eu merecesse um castigo para aliviar a dor. Era, e ainda é, complicado. Mas posso dizer, hoje em dia, a vergonha que senti quando eu entrei na minha primeira reunião era só minha, porque ninguém sabia, nem as minhas amigas sabiam, as coisas que eu fazia na totalidade. Sabiam que eu era espírito livre, não queria saber de moralismos e catolicismos, mas não sabiam de nada. Eu tinha muita vergonha. Vergonha de viver comigo própria e com a minha cabeça, a minha cabeça era um lugar muito perigoso.

P: Procurar ajuda implica consciência do problema e vontade de mudar. Quando aceitaste que sofrias uma adicção, hesistaste em procurar ajuda por alguma razão?

R: Sim. Ainda tive cerca de seis meses a adiar pedir ajuda e ir à minha primeiro reunião de adictos em sexo. A minha cabeça dizia-me que eu estava a exagerar, e se parasse com aquela pessoa ou aquela prática as coisas poderiam voltar ao normal. Criava sempre fatalismos: “nunca mais vou ter sexo!? Não sou capaz!”. Passava sempre a esponja na minha cabeça para tentar esquecer do quão mal as coisas realmente foram. Nesses seis meses, as coisas pioraram e ainda bem porque me levaram para a recuperação e para a luz. Lutei muito com a minha própria cabeça, fiz de tudo para não ter que pedir ajuda, mas ainda bem que pedi.

P: A irmandade é aberta para qualquer pessoa que sofra ou pense sofrer de adicção sexual e amorosa e.  é possível o seu acesso online. Foi a partir da Internet que descobriste a irmandade?

R: Eu descobri por outras irmandades, já conhecia outras pessoas que frequentavam esta irmandade. Deram-me um livro antes de eu ir à primeira reunião e eu li e identifiquei-me imenso com as histórias. Há partilhas no youtube que não têm video, é só o audio, e então eu ouvi o que seria uma reunião, e identifiquei-me com tudo. Como tu dizes há o site online … e assim foi.

P: O que é que mudou desde que começaste a frequentá-las?

R: Eu entrei numa reunião, eu era a única mulher, eram cinco ou seis homens mais velhos. Eu sentei-me na cadeira a pensar que merecia ir presa, ou morrer, ou qualquer coisa. Que eu era muito mais doente que eles todos, e se abrisse a boca podia prejudicá-los. Quando eles começaram a falar…, note-se que eram homens na maioria casados e eu teria muito pouco com que me identificar com eles. Mas eles foram falando, e estavam a falar de mim! Tudo! E eram homens…, para mim foi um grande choque pela positiva. Pela primeira vez na vida, senti que tinha encontrado a minha casa e que havia mais pessoas como eu, e pessoas com quem eu  podia ser realmente eu ela primeira vez na vida, rebentar a bolha da vergonha, e não ter de esconder quem eu realmente era. Isso foi uma grande libertação, e foi o primeiro passo para me aceitar como eu sou e ter o principio de uma vida feliz.

P:As reuniões adaptam o formato dos Alcoólicos Anónimos. Qual é o papel da religião e espiritualidade na recuperação?

R: Só uma correção, as reuniões de grupo não têm nada de religioso. Uma pessoa de qualquer religião ou sem religião e agnóstica pode fazer parte da irmandade. O ponto espiritual que se fala tem mais a ver com o aspecto contemplativo, de nós sabermos o nosso lugar no mundo e no universo, do que uma experiência metafísca. Embora para mim, hoje em dia, seja um milagre o facto de eu ser uma pessoa funcional e amável, … mas isso é a minha opinião. No livros dos alcoólicos anónimos, a seguir ao capítulo “mais sobre o alcoolismo”, há um capítulo que se chama “para os agnósticos”, e desmistifica…. apesar de as reuniões muitas vezes serem em paróquias ou igrejas, nós nada temos a ver com religião. Diz-se que são principios espirituais que praticamos… passo a explicar os principios: estar ao serviço dos outros, ou seja, praticar o altruísmo, a honestidade e a boa-vontade. Isto é, não há nenhuma congregação, é só viver o oposto do que nós vivíamos que era o egoísmo, o egocentrismo. Estes principios espirituais são aquilo que nos liberta. Não é necessário nenhum dogma, ou crença específica.

P: Em que é que consiste a recuperação?

R: Quando eu disse que não tem nada de metafísico mas que o que  está a acontecer comigo é um milagre… Fazer os passos com uma madrinha, que tem muito mais auto-conhecimento e estudo do próprio livro dos Alcoólicos Anónimos, … em que se lê a história e a experiência de duas pessoas que, em 1930, conseguiram ficar limpos de alcóol. Estavam os dois numa cama de hospital com cirrose, e eram dados pelo hospital psiquiátrico como alcóolicos incuráveis. Como é que eles conseguiram recuperar? Através dessas atitudes altruístas que eles foram tendo, nem que seja a honestidade de partilhar um com o outro, … produz uma transformação. Ninguém sabe explicar esta transformação, não se pode quantificar. O meu processo de recuperação é sobre coisas que eu não posso explicar. Eu sei o que é que eu faço: eu vou a reuniões, eu sou honesta, eu ligo para várias pessoas que estão ou querem entrar em recuperação, eu estudo, eu tento tratar as pessoas com respeito e, através destes atos, vão acontecendo mudanças. Hoje em dia sinto-me conectada a um poder superior a mim. Se é Deus? Eu não sei o que é mas sinto. Sinto uma conexão que vem do fundo do meu coração até ao topo das estrelas. Eu estou protegida, eu estou bem, e nada me vai acontecer.

P: Uma verdade muito dura sobre a adicção é que torna os adictos egoístas, concordas?

R: Todos os meus comportamentos eram egoístas e egocêntricos.

P: Nas reuniões testemunhas confissões de homens e mulheres. Há uma diferença entre ser um homem adicto ou mulher?

R: Não, é igual.

P: Em Portugal, apesar de existirem centros de alcoólicos anónimos, só existe uma irmandade de adictos anónimos ao sexo e amor. Qual é a razão para isto acontecer?

R: É uma irmandade muito recente. NA (Narcóticos anónimos) começou nos anos 50 (século XX) . AA (Alcoólicos Anónimos) nos anos 30. SAA (Sex Adict Anonymous) começou nos anos 80 ou noventa. Portanto é muito recente. Há muitas pessoas que morrem assim, ou se suicidam, ou que passam uma vida inteira de solidão e nunca encontram a solução. Este é um dos grandes motivos pelos quais eu estou a dar esta entrevista, porque cada pessoa que é tocada pela recuperação de outra afeta cinco pessoas. O que eu mais quero é que pessoas que estão em sofrimento saibam que há uma solução, que há este grupo em Lisboa mas que poderá haver mais se houver mais pessoas que estejam em recuperação. Os grupos são autónomos e basta duas pessoas para abrir um grupo. Esse é o meu desejo: que as pessoas que ainda estão a sofrer encontrem a luz, e que agarrem esta oportunidade de ser felizes!

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